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… como grãos de areia

Publicado por leioeescrevo em 3 Outubro 2008

“Havia um deserto que possuía imensos grãos de areia. Muitos desses grãos, por serem jovens, deixaram-se levar pela brisa que sobre eles diariamente soprava. Pela sua leveza alcançaram um lugar distante daquele onde tinham nascido, mas isto não era problema, pois a juventude que os caracterizava dava-lhes força e a união necessárias para suportarem a distância. Todos os dias eram inundados pela luz e calor do sol, coisa que eles muito apreciavam, pois quando eram arrastados pela brisa, conseguiam ver o local onde acabavam por cair.

Um dia, porém, a brisa transformou-se em vento e este em furacão que trazia consigo muita, muita chuva. Os grãos sem perceberem, viram-se arrastados em grandes quantidades de areia que ao caírem no chão se iam acumulando, formando dunas cada vez mais altas e extensas. Os pobres grãos, coitados, quiseram libertar-se, mas a água corria furiosa encosta abaixo, levando tudo à sua frente. Os grãos incrivelmente viviam um deserto… no próprio deserto! Acomodaram-se, aconchegaram-se, enfim, recolheram-se o melhor que puderam… porém não conseguiram ficar resguardados por muito tempo. A forte chuvada tinha deixado um rasto de destruição e alguns começavam a empedernir.

Após meses de tempestade, uma manhã um raio de sol mais ousado rompeu o tecto de nuvens e veio incomodar um dos grãozitos de areia que se desprendeu daquele princípio de pedra que estava a nascer. Rolou encosta abaixo e foi tocando com o seu calor os outros grãos seus companheiros de viagem. Aos poucos estas pedrinhas pequenas foram rolando e incomodando outras. Chegadas ao vale, reuniram-se e, fruto da queda, estavam mais redondas, mais lisas, mais leves! Olhavam-se e começavam a perceber que estavam diferentes, mas curiosamente mantinham uma vontade comum que haviam descoberto tempos antes: queriam continuar no deserto mas sentiam que a sua missão era tocar noutros grãos que se estavam a deixar empedernir. Queriam no fundo que o deserto, mantendo aquela aparência, fosse renovado por outros grãos e por novas dunas, que aliás serviam para atestar a leveza de cada grão, pois quanto mais leves, mais eles se deixavam levar pelo vento e novas dunas ajudavam a formar. E como eram, são e serão importantes essas dunas!… Cada nova duna deixa espaço a que outra surja, pois no deserto, aprenderam os grãos, há espaço para todos e todos têm uma missão a cumprir. Uma duna fica mais pobre se perder um grão. Mas uma duna que ganhe um grão, fica mais rica, mais forte, mais coesa. Também é assim o nosso Deus, mais uma alma conquistada, mais alegria no céu.

Sejamos nós estes grãos inquietos que só cumprem a sua missão: aumentar o tamanho das dunas.”

(Paulo Simões, Retiro Kerygma – Fevereiro de 2006)

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