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Arquivos para a Categoria ‘Opinião’

Simplesmente ser cristão…

Publicado por leioeescrevo em 4 Novembro 2008

Santidade, imagens, velas, flores, altares, incenso, esmolas e orações, tudo isto compõe o cenário do mês que se aproxima. É o mês dos santos, diz a tradição. Santos, sim, aquelas pessoas que achamos tão distantes da nossa realidade. Vidas de grandes feitos, sacrifícios inigualáveis, uma bondade sem limites… As biografias que leio deixam-me sempre desconcertado. A distância que vejo cavar-se entre mim e eles parece intransponível. Pergunto-me muitas vezes se eles não teriam sentimentos semelhantes aos meus, se de vez em quando não perderiam a paciência, se não duvidariam muitas vezes daquilo que os movia. Aproveitando estes tempos em que somos convidados a meditar na figura de São Paulo, acho que temos bons argumentos para não colocar a santidade num patamar apenas acessível a alguns.

Mas afinal como posso ser santo hoje? Ter uma imagem num altar, com dezenas de velas a venerarem-me…. Será a santidade apenas isso?

Imagino Paulo, o apóstolo, bastante irado contra as imagens que hoje dele fazemos: um homem idoso, longas barbas, a segurar uma espada. Ele certamente entraria nas Igrejas e ficaria surpreendido com a quantidade de imagens de santos que hoje veneramos. A Cruz, a imagem de Jesus Cristo, essa ficaria elevada no lugar mais destacado do templo. Por muito grandes que sejam os modelos de cristianismo que possamos ter, o mais importante é Cristo. É Ele que nos conduz, que nos faz viver, que dá sentido a todas as coisas. As imagens que observamos de rosto pálido e sorriso intermitente não ilustram seguramente a alegria que aqueles homens e mulheres experimentavam ao viverem a sua vida em união à pessoa de Jesus. Paulo, um dos maiores santos da Igreja, não teria dúvidas em afirmar que ser santo passa simplesmente por ser cristão.

Mas afinal não há imensos cristãos no mundo de hoje? Ou será que ser cristão é algo um pouco diferente do que geralmente se considera?

São Paulo não tinha dúvidas de que ser cristão não é uma convenção ou um título que podemos usar depois de sermos baptizados; ser cristão é muito mais. Ser cristão é muito mais do que palavras bíblicas que possamos invocar nas situações que nos convêm; é muito mais do que cruzes ao peito e tatuagens do rosto de Cristo no braço. Ser cristão é certamente muito mais do que acusar os pecados do vizinho, apontá-lo e virar-lhe o rosto elevado quando por ele passo. Ser cristão é ser outro Cristo, ou seja, manter uma relação de proximidade e profundidade únicas com Deus; um diálogo constante com Aquele que nos oferece uma visão lúcida da realidade e da nossa posição na história. É saber medir bem cada passo que dou, na certeza de que faço tudo diante d’Aquele que me amou primeiro. É adaptar cada gesto, cada palavra, cada acto, mesmo sabendo que, muitas vezes, o meu pensamento e a minha vontade me tentam iludir com utopias de uma felicidade fácil e fechada sobre mim mesmo. Ser cristão é ter sempre diante de mim a inquietante e decisiva questão: se Jesus estivesse aqui agora, o que faria? Como faria? O que diria? Como diria? E eu, agora, que faço?

Será então possível eu dizer-me cristão hoje e viver debaixo de uma tão grande exigência?

E porque não?

Rui Ferreira

 

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HÁ SEMPRE ALGUÉM QUE DIZ NÃO!

Publicado por leioeescrevo em 9 Outubro 2008

A seguradora AIG já era famosa quando andava sob o pescoço de Cristiano Ronaldo, na camisola do Manchester. Mas famosa mesmo, mesmo, foi quando os americanos passaram a andar com a AIG ao pescoço. Esganados. Ela falira e não fosse sugarem-se os dinheiros públicos (85 mil milhões de dólares) a empresa fechava. Não fechar é bom e o que é bom festeja-se. Alguns executivos da AIG foram para um luxuoso hotel de Monarch Beach, Califórnia, com factura final de 300 mil euros, entre diárias, almoços e pedicura. Tudo pago pela empresa que, já vimos, era paga pelos contribuintes. Evidentemente, os invejosos do costume foram aos arames – na Câmara dos Representantes, alguns dos eleitos que ainda há pouco tinham votado o resgate da AIG indignaram-se com o abuso. É verdade que aqueles executivos, em superficial análise, parecem não merecer prémio algum, quanto mais pedicura. Como se fosse fácil lidar com a consciência. Esta é aquela voz interior que nos diz que alguém está olhando. Sem poderem usufruir dos luxos com merecida tranquilidade, aqueles executivos estavam, no entanto, a dar-nos uma esperança: a crise não é geral.

Ferreira Fernandes
Fonte: DN

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Falar em Igreja

Publicado por leioeescrevo em 3 Outubro 2008

De tempos a tempos, surge em público a questão sobre se a Igreja em Portugal deveria ter ou não um órgão nacional na imprensa para funcionar como voz oficial, que deixasse claras as posições da hierarquia católica a respeito dos mais diversos temas da actualidade, permitindo também esclarecer falsidades ou deturpações lançadas noutros meios.Deixando de lado o facto – relevante – de não existirem Igrejas “nacionais” no nosso mundo católico, a grande questão passa, mais do que pela existência de um ou de centenas de meios de comunicação social, pela centralização de posições e opiniões num número restrito de pessoas, por mais responsabilidades que tenham, algo que acaba por parecer um contra-senso numa sociedade cada vez mais aberta ao pluralismo e a novos protagonismos.

É verdade que nem todos podem falar em nome da Igreja, mas é curioso notar que, quando se quer saber a posição católica sobre determinado tema, só se assumam como possíveis interlocutores os seus Bispos ou, no máximo, um ou outro sacerdote mais mediático. A Igreja não pode falar sobre a crise em Wall Street? Ou sobre alterações legislativas em curso no nosso país? Ou sobre a onda de criminalidade que enche os ecrãs e as páginas dos jornais?

Pode e deve, parece ser a resposta mais óbvia. O que não parece lógico é que se peça sempre aos mesmos que falem de tudo, do futebol à economia, da política à justiça, da cultura às novas tecnologias.

Em Fátima, nas Jornadas Nacionais das Comunicações Sociais, o Bispo de Coimbra deixou um apelo directo a todos os baptizados: é preciso “dar a cara”. Em especial, pediu aos jornalistas que se assumam como vozes católicas no meio do barulho mediático, reagindo quando for oportuno às pequenas e grandes provocações que a altivez (e ignorância) de muitos vão lançando de forma indiscriminada e, quase sempre, pouco fundamentada.

Falar em Igreja é, afinal, falar como comunidade e não como um mero espectador desiludido com o desempenho da sua equipa, mas impossibilitado de entrar em campo. Independentemente dos meios existentes – e os novos tempos da Internet permitem uma diversificação cada vez maior -, o problema da ausência de voz e de vez persistirá enquanto os católicos não se sentirem comprometidos nesta causa, procurando e oferecendo informação quando forem chamados a isso.

 

Octávio Carmo (30/09/2008) – Agência Ecclesia

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Isto acaba mal

Publicado por leioeescrevo em 2 Outubro 2008

Neste momento de crise profunda, em que o sistema económico-financeiro parece derrocar em todo o lado, ouvem-se os comentadores de esquerda repetir, abanando a cabeça, que sempre tinham avisado disto. Não faltam até previsões de estertor final do capitalismo e prenúncios de um mundo novo.

Estas opiniões têm toda a razão, pois aqui se situa o principal defeito do sistema em que vivemos, que um dia o pode destruir. A economia de mercado vive permanentemente à beira do abismo e, por vezes, como em 1929, cai mesmo lá dentro. O nosso sistema baseia-se na liberdade de iniciativa. E a liberdade tem destes percalços. Podem culpar-se muitas leis, decisões, organismos, até erros e crimes, mas tudo isto só acontece devido à liberdade incontrolada.

Mas tais opiniões equivalem também a um homem que vai de carroça, vê um avião cair e afirma: «Eu bem disse que isto acabava mal!» O cocheiro tem toda a razão, mas não é por isso que as pessoas vão deixar de voar e voltar às seguras diligências.

As críticas são válidas. Mas os que as fazem não notam que o computador em que as escrevem e o blogue, jornal ou televisão em que as expressam existem apenas graças ao sistema que tanto abominam. Até a aspirina que tomam para tratar as dores de cabeça que o capitalismo lhes causa foi produzida graças aos produtos financeiros que lhes dão dores de cabeça.

Crises tão terríveis são, afinal, os custos daquele sistema que nos traz a prosperidade. Aquela mesma prosperidade que usamos para criticar o sistema. A insegurança, incerteza e até o tumulto são custos da liberdade.

João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

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