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Arquivo de Novembro, 2008

Bispo culpa restantes bispos pelo atraso da Igreja

Publicado por leioeescrevo em 12 Novembro 2008

Polémica. A Igreja está “pejada de pagãos ou cristãos incoerentes” e a culpa é dos bispos que continuam clericalistas e individualistas, sem levar a sério a formação dos fiéis. A crítica é de D. António Marcelino, bispo resignatário de Aveiro. Os bispos reúnem-se hoje em Fátima, com a polémica no ar.

Os bispos portugueses reúnem-se a partir de hoje, em Fátima, até dia 13, na habitual Assembleia-Plenário do Outono, sendo que desta vez a “apimentar” o encontro está um artigo do bispo resignatário de Aveiro, publicado recentemente na agência Ecclesia, em que culpa os seus colegas prelados pelo atraso da Igreja em Portugal, considerando-a longe dos desafios lançados pelo Concílio Vaticano II.

D. António Marcelino ataca os seus colegas bispos, acusando-os de permanecerem clericalistas e individualistas. “Enquanto houver algum predomínio do clericalismo, aos diversos níveis, e do individualismo pastoral, que parece satisfazer cada um na autonomia do seu território, não será possível abrir caminhos novos”, defende. Em seu entender, “a autonomia das dioceses, com as suas tradições, caminhada própria e perfil humano e social diferentes, tem dificultado sempre iniciativas comuns necessárias em ordem a uma desejada e urgente renovação”.

Neste sentido, o ex-vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), no mandato de D. José Policarpo, numa crítica acutilante e sem precedentes, culpa os seus colegas diocesanos pela ignorância catequética em que são mantidos os católicos, frisando que nem a CEP tem levado o assunto a sério. “Os bons propósitos de uma iniciação cristã programada de que se foi falando em diversas instâncias não foram longe e não se viu reflexão nesse sentido, nem a nível de CEP e seus serviços nem a nível da quase maioria das dioceses”, escreveu.

Em consequência, o panorama, na perspectiva de D. António Marcelino, é o seguinte: “Uma Igreja, com grupos maioritários válidos e apostólicos, mas pejada de pagãos ou de cristãos incoerentes. Que vão perdurando, e não diminuindo, por uma sacramentalização sem evangelização ou catequese.”

O prelado resignatário de Aveiro acusa os demais bispos de olharem só para os seus próprios umbigos, sem se centrarem no essencial. “Muitos planos pastorais aparecem mais voltados para os problemas internos da Igreja, por importantes que estes sejam, que para o seu dever como servidora do mundo que tem e ouvir para melhor dialogar.” Acusando os colegas de clericalistas, sublinha: “A muitos leigos bem preparados pede–se-lhes o que muitos outros podem fazer e não um contributo de reflexão e planificação para que têm saber e competência.”

Para D. António Marcelino, a Igreja precisa da renovação pedida por Bento VI quando da visita ad limina dos bispos a Roma, dando razão às críticas do Papa. “A Igreja do Vaticano II não pode ser mais uma Igreja de cristandade, na qual a tradicional vertente clerical substitua ou impeça a integração dos leigos na vida e na missão concreta da Igreja.”

Por LICÍNIO LIMA, MANUEL CORREIA-JORNAL DE NOTICIAS

2008-11-11

Fonte: DN via Paroquias.org

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Simplesmente ser cristão…

Publicado por leioeescrevo em 4 Novembro 2008

Santidade, imagens, velas, flores, altares, incenso, esmolas e orações, tudo isto compõe o cenário do mês que se aproxima. É o mês dos santos, diz a tradição. Santos, sim, aquelas pessoas que achamos tão distantes da nossa realidade. Vidas de grandes feitos, sacrifícios inigualáveis, uma bondade sem limites… As biografias que leio deixam-me sempre desconcertado. A distância que vejo cavar-se entre mim e eles parece intransponível. Pergunto-me muitas vezes se eles não teriam sentimentos semelhantes aos meus, se de vez em quando não perderiam a paciência, se não duvidariam muitas vezes daquilo que os movia. Aproveitando estes tempos em que somos convidados a meditar na figura de São Paulo, acho que temos bons argumentos para não colocar a santidade num patamar apenas acessível a alguns.

Mas afinal como posso ser santo hoje? Ter uma imagem num altar, com dezenas de velas a venerarem-me…. Será a santidade apenas isso?

Imagino Paulo, o apóstolo, bastante irado contra as imagens que hoje dele fazemos: um homem idoso, longas barbas, a segurar uma espada. Ele certamente entraria nas Igrejas e ficaria surpreendido com a quantidade de imagens de santos que hoje veneramos. A Cruz, a imagem de Jesus Cristo, essa ficaria elevada no lugar mais destacado do templo. Por muito grandes que sejam os modelos de cristianismo que possamos ter, o mais importante é Cristo. É Ele que nos conduz, que nos faz viver, que dá sentido a todas as coisas. As imagens que observamos de rosto pálido e sorriso intermitente não ilustram seguramente a alegria que aqueles homens e mulheres experimentavam ao viverem a sua vida em união à pessoa de Jesus. Paulo, um dos maiores santos da Igreja, não teria dúvidas em afirmar que ser santo passa simplesmente por ser cristão.

Mas afinal não há imensos cristãos no mundo de hoje? Ou será que ser cristão é algo um pouco diferente do que geralmente se considera?

São Paulo não tinha dúvidas de que ser cristão não é uma convenção ou um título que podemos usar depois de sermos baptizados; ser cristão é muito mais. Ser cristão é muito mais do que palavras bíblicas que possamos invocar nas situações que nos convêm; é muito mais do que cruzes ao peito e tatuagens do rosto de Cristo no braço. Ser cristão é certamente muito mais do que acusar os pecados do vizinho, apontá-lo e virar-lhe o rosto elevado quando por ele passo. Ser cristão é ser outro Cristo, ou seja, manter uma relação de proximidade e profundidade únicas com Deus; um diálogo constante com Aquele que nos oferece uma visão lúcida da realidade e da nossa posição na história. É saber medir bem cada passo que dou, na certeza de que faço tudo diante d’Aquele que me amou primeiro. É adaptar cada gesto, cada palavra, cada acto, mesmo sabendo que, muitas vezes, o meu pensamento e a minha vontade me tentam iludir com utopias de uma felicidade fácil e fechada sobre mim mesmo. Ser cristão é ter sempre diante de mim a inquietante e decisiva questão: se Jesus estivesse aqui agora, o que faria? Como faria? O que diria? Como diria? E eu, agora, que faço?

Será então possível eu dizer-me cristão hoje e viver debaixo de uma tão grande exigência?

E porque não?

Rui Ferreira

 

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